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O olhar de uma designer brasileira na Cúpula 2019 do Images & Voices of Hope em NY

20 de agosto de 2019

Cristiane Konrath Ramires, 37, relata em entrevista concedida ao IVE como foi sua experiência ao participar dessa Cúpula, em junho, que reuniu mais de 80 profissionais ligados a mídia, comunicação, games e design em uma atmosfera totalmente propícia a insight. Ela nasceu em São Leopoldo, RS, e cursou a Faculdade de Comunicação Digital na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Viveu e trabalhou no Rio de Janeiro e hoje é uma UX designer (User Experience) residente em NYC com clientes em vários países.

O que a motivou a aceitar o convite para participar da Cúpula do Images & Voices of Hope (ivoh), em NYC?

Foram várias motivações, a vontade de fazer algo bom através do meu trabalho, algo que agregue e que realmente faça diferença na vida das pessoas. Poder fazer parte de um grupo de pessoas que são agentes de mudança, poder contribuir e me unir a pessoas com os mesmos objetivos, além de me tornar proativa no fazer o bem ao nosso planeta.

Como o evento foi estruturado? Uma reunião de profissionais preocupados com o futuro das narrativas humanas em uma “Vila de Paz”, sede de retiros da Brahma Kumaris em NY. Como foi essa combinação?

Os profissionais eram produtores de conteúdo como, roteiristas, cineastas, produtores de séries de TV, designers de games, jornalistas, fotógrafos e designers como eu. Por dois dias e meio, nos reuníamos em um salão para palestras, encontros de grupos de conversa e apresentações de projetos. Os dias começavam com meditação e yoga e terminavam com atrações artísticas. E toda a alimentação era vegetariana.

Workshop
Cúpula em Peace Village

Para mim, reunir estas pessoas nesta “Vila de Paz” foi uma excelente combinação, pois a atmosfera do ambiente e o propósito da Brahma Kumaris que sedia este evento são inspiradores e compatíveis com aquilo que o ivoh se propõe: fazer do nosso planeta um lugar de paz, aprendizado e amor.

De todas as histórias que você lá ouviu, qual delas causou mais impacto em você? Conte para nós.

Foram muitas histórias inspiradoras e transformadoras. Algumas delas se destacaram como o trabalho de um psicoterapeuta que, a partir de seu interesse pela religião e arte asiática, há oito anos trabalha com Neurofeedback para tratar sobreviventes de trauma e ajudar pessoas que não conseguiam meditar a aprender a fazê-lo com treinamento cerebral. É um trabalho que traz a arte japonesa de restauração de peças de louça em uma analogia com as cicatrizes visíveis das peças quando restauradas e as nossas cicatrizes. E também como a “peça” pode ter sua beleza e “função” mesmo depois de um evento traumático.

Ou mesmo o trabalho de uma artista e fotógrafa de Chicago que analisou o mapa da cidade e percebeu a disparidade social entre pessoas que moravam na mesma rua, porém em bairros com diferentes padrões sociais. A partir desta investigação, ela reuniu todos para uma conversa.

Mapa da segregação de Chicago

Ou ainda o trabalho de uma jornalista que coordena um projeto que ensina a escrita em prisões e realiza trocas de cartas entre estudantes encarcerados e escritores estudantes.

Muitos dos que estavam lá são bolsistas de Narrativa Restaurativa, ou seja, estão explorando com profundidade os mecanismos que regem esse tipo de narrativa. Nessas histórias que você destacou, deu para perceber se havia uma linha mestra tecendo os fatos?

Sim, era possível perceber isso. Posso assumir que todos os projetos nasceram a partir de um “problema”, algo que gerava algum tipo de desconforto, seja um trauma, uma catástrofe, ou uma situação difícil. A abordagem de cada um deles era a de transformar aquele que participasse refazendo sua história e lhe dando as ferramentas certas para seguir adiante.

Muitas vezes temos a vontade de ajudar, mas não sabemos como fazer. Este tipo de narrativa oferece um caminho possível, independente do formato que se escolhe para fazer. E habilita qualquer pessoa a fazer, através de um projeto social, de uma conversa, de uma matéria que se escreve, do momento da foto que se escolhe fazer, ou seja, é a lente que vamos escolher usar na história que vamos contar.

O tópico das últimas cúpulas do ivoh tem sido a Narrativa Restaurativa. Após esse fim de semana convivendo com vários profissionais experientes e jovens aprendizes desse novo jeito de contar histórias, o que você entende por Narrativa Restaurativa?

Eu entendo como um posicionamento. Qual é o meu posicionamento sobre algo? Como eu escolho fazer algo? Como vou contar tal história? Quando acontece um desastre natural, como eu escolho contar esta história? Qual a foto que eu vou publicar? É através de um olhar de aprendizado, de resiliência e cooperação? Ou um olhar apenas da tragédia em si, e que gera medo às outras pessoas que vão consumir estas informações? Como vai ser a série de TV ou o filme que eu vou produzir? Vou dar um desfecho inspirador e reconfortante sinalizando que apesar das dificuldades enfrentadas conseguimos dar a volta por cima a ponto de nos recompor, ou vou exibir algo a partir de um ponto de vista negativo? Ao ajudar pessoas em necessidade eu vou sanar um problema pontual ou darei o suporte para que esta pessoa se recomponha e retome sua vida com equilíbrio e dignidade? São estas perguntas que pairam sobre nós quando aprendemos a narrativa restaurativa. E por isso ela é tão poderosa, sustentável e transformadora.

Fale um pouco do seu trabalho em NYC e no mundo. Você se considera uma imagem de esperança?

Eu sou uma UX designer (User Experience) e meu trabalho é, basicamente, criar interfaces digitais amigáveis. No processo de design, considero esta etapa uma das mais bonitas, pois User Experience é pensar no usuário, na sua satisfação e conforto durante a sua interação. Quando eu desenvolvo uma interface fácil de usar, eu estou capacitando as pessoas a atingirem seus objetivos.

Atualmente eu moro e trabalho em NYC como designer freelancer para clientes de vários países. Alguns dos meus clientes são daqui de NYC e São Francisco, e outros do Brasil e Europa. Eu particularmente sou uma pessoa positiva e sempre procuro pelo melhor lado de cada situação. Tenho como intenção exercer um papel construtivo no meu trabalho, no dia-a-dia e na minha relação com as pessoas. Por isso, eu me considero uma imagem de esperança.

Há 20 anos, o movimento Imagens e Vozes de Esperança foi concebido para inspirar produtores de conteúdo. Mas hoje todos produzem ou distribuem conteúdos através das redes sociais. Poderíamos dizer que todos são mídia? Sendo assim, você acha que é possível expandir para as redes sociais essa onda construtiva e respeitosa face à crescente polarização e intolerância que testemunhamos hoje no mundo? Como?

Com certeza, todos são mídias. Sou partidária de quanto mais formatos melhor, não importa como se faça desde que façamos. Pode ser através de uma foto, de um tweet, de um texto longo ou curto, através do Facebook ou Instagram, um texto de blog ou no jornal de referência de cada país.

As redes sociais são uma grande oportunidade para espalharmos esta ideia, pois o consumidor de conteúdo mais jovem, em sua maioria, não está consumindo informação por meios tradicionais. Além disso, as pessoas, de um modo geral, se acostumaram a consumir informação a partir das mídias sociais. Portanto, precisamos preencher cada vez mais estes espaços com bons conteúdos.

Há alguns perfis no Instagram, por exemplo, que já fazem um trabalho muito positivo de curadoria de notícias escolhendo exibir eventos positivos, ao invés de tragédia ou fofocas. E a expansão de bons conteúdos para as redes sociais pode contribuir e muito na transformação da polarização e intolerância exagerada que testemunhamos nos dias de hoje, abrindo espaço para a aceitação do outro e do que é diferente de mim.

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