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Cuidar. Desaprendemos?

19 de dezembro de 2011

“Ou aprendemos a cuidar ou vamos perecer todos.”

Bernardo Toro

Outro dia, sentada no aeroporto naqueles fantásticos momentos em que não sabemos se o avião sai ou não sai, se será mesmo naquele portão ou não (quase nunca é), resolvi dedicar um tempo para fechar os olhos e meditar. Veio imediatamente à minha mente uma pergunta: e se eu estivesse ali, no aeroporto, vinte anos antes? O que seria diferente?

Abri os olhos lentamente, como se estivesse chegando ali naquele momento, enviada pela roda do tempo!

 

Olhei aquelas pessoas estranhas voltadas para suas máquinas. Ninguém olhava ninguém, o mundo estava dentro de celulares e laptops. A atenção concentrada nos dedos que se moviam com uma rapidez ainda desconhecida por mim, que vinha de outros tempos. Comecei a lembrar da elegância dos aeroportos, das roupas, dos olhares, das conversas e das paqueras, que eram frequentes.

Todo mundo voltado para si mesmo. Não dava nem para sentir se as pessoas estavam tristes, alegres, cansadas. Estavam voltadas para suas ferramentas: as máquinas. Andavam também com celulares, falando ou digitando. Ninguém, no aqui e agora, todos lá, em outro lugar. No máximo olhares rápidos iam para a tela dos voos. Algumas mães corriam atrás dos filhos fascinados com o espaço oferecido. Só eles pareciam alegres e vivos!

Olhei para a direita e vi um grande painel mostrando imensos ventiladores, que há vinte anos eu não reconheceria. Energia eólica da Siemens. Do outro lado, um painel mostrava uma plantação cheia de lâmpadas “nascendo”. Biocombustível.

Foi fácil perceber que vivemos num mundo novo. Um mundo que começa a mostrar sua nova cara, com novas tecnologias, novas formas de viver, novos estilos de vida. Algumas coisas ótimas; outras, nem tanto. Mas foi inevitável, a partir dali, perceber como perdemos uma coisa fundamental, relacionada à palavra cuidar.

O portão de embarque foi liberado e todos se levantaram prontos para partir. No avião, velhos e crianças, mulheres carregando malas pesadas, com dificuldade para colocá-las nas prateleiras, pessoas viajando pela primeira vez, atrapalhadas com o cinto de segurança e a numeração de lugares. Cada um fortemente determinado a “ficar na sua”.

Contato zero com a natureza, com o que tem vida.

Será que alguém percebe se faz sol lá fora? Alguém percebeu se a lua apareceu ontem à noite?

Cuidar. Cuidar da natureza, do outro, da vida.

Minha avó fazia tapetes com saquinhos de leite, vizinhos conversavam, trocavam temperos, dividiam alimentos.

O tempo existia. Não corríamos dele com medo.

Cuidávamos naturalmente do corpo porque andávamos.

Com o tempo, perdemos o tempo para colocar nosso tempo a serviço do cuidar. Desaprender, esse verbo tem nos custado muito caro.

Lembrei do livro de Leonardo Boff, Saber cuidar, de 1999. Esse livro inspirou o início das atividades da Rebouças. Lembro-me de ter criado um evento para uma empresa inspirado nos conceitos apresentados ali. Talvez eu intuísse os desafios do novo século. Chegamos a pensar que seria o tempo da redenção. Aí, assistimos aos ataques de 11 de setembro de 2001. E começamos a assistir à morte e não à vida.

Boff falava que o silêncio de um olhar era capaz de dizer palavras. Muitos olhares nessa década, documentados em fotos e vídeos, mostram mil palavras do nosso mundo sem destino que desaprendeu o sentido da palavra cuidar.

Para cuidar é preciso consciência, e, ao distrair a nossa com a tecnologia, a consciência fica cada vez mais longe do nosso alcance. Cuidar exige atenção, e o tempo anda roubando a capacidade de cuidar do tempo, aqui e agora. Cuidar é um termo muito forte para os profissionais de saúde. Ao pensar a saúde, talvez possamos entender a profundidade do sentido da palavra cuidar.

O contrário de cuidar é descuidar. Verbo que conhecemos bem com as pessoas, com a natureza, com tudo que nos cerca, inclusive com os objetos… A gente compra outro. Cuidar significa ouvir, reconhecer, interagir, ter compaixão.

Você consegue perceber isso no dia a dia da sua organização?

Texto de Nadia Rebouças.

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