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Por uma mídia que traga empatia, engajamento e resiliência em tempos difíceis

9 de março de 2016
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Profissionais de diversas áreas (Economia, Jornalismo, Artes, Cenografia, Engenharia, Administração, Biologia, Marketing) se reuniram nos dias 28 e 29 de novembro de 2015 para refletir sobre o tema “Narrativa Restaurativa (NR) – como resgatar o humano de todos os lados da estória” que expressa fortalecimento, possibilidade e revitalização em tempos de ruptura. O encontro aconteceu na Vila Serra Serena  – sede de retiros daOrganização Brahma Kumaris  em Serra Negra, SP.

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Participantes do retiro

Utilizando o diálogo apreciativo e a meditação como ferramentas, as facilitadoras Rosa Alegria e Ana Lúcia de Castro guiaram a conversa durante o fim de semana. Rosa é mestre em Ciências em Estudos do Futuro pela Universidade de Houston, vice-presidente do Núcleo de Estudos do Futuro da PUC/SP, mobilizadora do IVE desde 1999 e co-fundadora do Movimento Midia da Paz. Ana Lúcia é coordenadora da escola da Brahma Kumaris em Laranjeiras (RJ), experiente professora de Raja Yoga e ponto focal do IVE na capital carioca.

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Para Rosa a NR é um conceito em construção, mas existem palavras que podem expressar seu significado. São elas: restauração, esperança, empatia, engajamento, resiliência e futuro. Para isso é preciso um olhar diferente que traga mudança na comunicação tradicional. É preciso sair do estado de caos, trauma, desolador para um estado de resiliência e empatia. As pessoas não são apenas consumidoras de conteúdo. A NR mobiliza a fazer bater o coração, a coparticipar. Rosa citou o sociólogo Fred Polak: “a ascensão e queda das culturas foram consequências de suas imagens de futuro. Imagens positivas fizeram florescer as culturas, imagens decadentes fizeram destruí-las.”

A NR é orientada na direção do futuro, traz esperança, nutre sonhos e abre caminhos para escolhas. Enquanto a maioria das histórias dá foco ao que foi e ao que nos trouxe até aqui, a narrativa restaurativa dá atenção ao que está por vir. Busca soluções para o conflito e os desafios apresentados. Procura investigar como as pessoas respondem.

O ser e a mídia 

Ana Lúcia ressaltou que o preparo interno antecede a mudança que queremos promover. Ela fez as seguintes perguntas ao grupo: Quem pensa, fala e atua? Quem critica e elogia? Quem conecta, desconecta e reconecta? Quem sou eu e quem é você? Segundo Ana Lúcia, precisamos ir além da superfície para entendermos a alma e a matéria, a consciência de ser o ator e o personagem. Aquele que cria, e seu reflexo, a luz e a sombra.

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Ela relembrou as palavras de Dadi Janki, coordenadora mundial da Brahma Kumaris, que recentemente completou 100 anos: “Os seres humanos criaram o mundo como ele está hoje. Portanto, está em nossas mãos mudá-lo, caso este seja nosso desejo. Tudo depende da nossa consciência, dos nossos corações.”

E qual o papel da mídia – só informar ou ser um agente de transformação? Como resgatar o humano de todos os lados da estória, se me desconheço? E, em vez de ser o jogador me torno a bola? Estas questões foram aprofundadas e vivenciadas durante o retiro.

O que mudou no mundo e no IVE?

O grupo foi inspirado a fazer um brainstorm sobre o que mudou no mundo em 16 anos de IVE. Em 1999, o mundo ia acabar mas não acabou. Em 2000, surgiu o Google, a informação imediata, o Wikipédia. Em 11 de setembro de 2001, houve o choque que abalou o mundo. A guerra no Iraque e Afeganistão; as redes sociais e o jornalismo digital em 2005; a devastação ambiental e o aquecimento global (Al Gore) eram verdade; os desastres ambientais (Tsunami, Katrina); a morte de Tim Lopes; smartphones; a era da colaboração; diversidade e intolerância; crime organizado; morte do Toninho do PT em 11 de setembro de 2011; morte do Prefeito de Campinas. Hoje estamos (quase) todos conectados, mas temos medo. Vivemos na correria. Experimentamos seca e escassez. O mundo colaborativo se tornou uma realidade. Buscamos o sentido da vida.

O IVE, que nasceu em meados de 1999, foi uma semente no caos. Nessa época, o IVE colocava o foco no que floresce, no construtivo. Buscava inspirar a mídia a ter mais equilíbrio ao noticiar e acabar com a crença que só notícia ruim vende. Era a onda das “boas notícias”. E Judy Rodgers, diretora fundadora do movimento, dizia: “Será que a mídia só tem que dar a notícia? Não, ela tem que transformar.” E para transformar é preciso um olhar mais apreciativo sobre o que está acontecendo ao nosso redor. Ressaltar as histórias de esperança, porque elas existem.

No entanto, a intensidade crescente dos fatos pediu uma nova reflexão sobre como narrar histórias de grande impacto, e até traumáticas, com uma perspectiva restauradora e resiliente. Nesse contexto, desde 2012, o IVE tem explorado o significado e a aplicação da NR na mídia.

O que o grupo pensa sobre a NR?

Na NR você se põe no lugar do outro e considera o princípio do presente alongado. Não apenas relata o fato, mas acompanha os desdobramentos e principalmente como os protagonistas da história conseguiram se recuperar do trauma. Eu vou aprofundar sua história. Eu me coloco no lugar do outro. Existe uma narrativa e existe um ser que tem o poder de transformar.

O jornal deveria ser o guardião dessas histórias. E o que é comum nessas histórias? (1) O poder de transformar. (2) As biografias pessoais e públicas. (3) O jornalismo investigativo, que deve ser preservado. (4) Os impactos em longo prazo. (5) Não estereotipar a comunicação. (6) Suspender o julgamento.

O grupo concluiu que a NR vai muito além da mídia quando consideramos que “todos nós somos mídia”. Somos mídia quando postamos nas redes sociais. Somos mídia quando contamos algo para alguém. E somos narradores restauradores quando conseguimos dar uma notícia triste para alguém sem destruir seu poder de agir.

 

Apesar do diálogo, os participantes ainda revelaram muitas duvidas sobre o significado e aplicação da NR. Uma série de perguntas foi então enviada à Judy Rodgers. Veja a seguir:

Grupo IVE: A narrativa restaurativa parece estar mais restrita ao jornalismo. Mas e sobre as outras categorias (publicidade, artes, comunicação, teatro, etc)? Como podemos aplica-la em outras expressões? Quais são elas?

Judy: Nós acreditamos que a narrativa restaurativa​ se aplica a qualquer gênero de mídia que tem um componente de narrativa. Este ano nosso programa de bolsas irá incluir outras mídias e teremos a chance de ver alguns exemplos de narrativa restaurativa em outras mídias.

Grupo IVE: O que eu quero restaurar?

Judy: A narrativa restaurativa é frequentemente invocada em momentos de trauma no qual as pessoas tenham perdido algo ou tudo – seu senso de autovalor, conexão com a comunidade, sentimento de proteção, esperança no futuro. É isso que esperamos restaurar.

Grupo IVE: Como queremos praticar isso?

Judy: A narrativa restaurativa é uma postura que um praticante de mídia teria no desenvolvimento da história que está no coração do seu trabalho. Para um indivíduo que tenha experimentado algum tipo de “retrocesso” ou crise isso poderia ser uma história interior na mente ou no coração.

​​Grupo IVE: E a nova mídia (mídias sociais)?

Judy: Pesquisas sugerem que as mídias sociais, em particular, favorecem posturas restaurativas em suas mensagens.

Grupo IVE: Se considerarmos a narrativa restaurativa como uma atitude, sua aplicação poderia ser expandida?

Judy: É claro. ​

Grupo IVE: Como a narrativa restaurativa é considerada no Images and Voices of Hope? Seria uma ferramenta? Uma causa? Uma campanha? Uma filosofia? Uma técnica?

Judy: A narrativa restaurativa pode ser mais bem entendida como uma plataforma para abordar narrativas ou histórias. Uma vez que a mídia está no negócio de contar histórias, ela é útil para aqueles da mídia como uma abordagem para o desenvolvimento de narrativas em seus trabalhos. Não é uma causa. Não é uma campanha. Eu não a vejo como uma ferramenta ou uma técnica. É uma forma das pessoas de mídia abordar seu trabalho.

Grupo IVE: Quem serão as vozes inspiradoras desse conceito?

Judy: Aqueles que encontram maneiras de trabalhar com histórias difíceis de forma que eles possam mover outros em direção a um senso de possibilidade, uma postura positiva e esperançosa diante do futuro serão as vozes inspiradoras. Os meios de comunicação que favorecerem essa postura para seus escritores, jornalistas, produtores também serão vozes inspiradoras deste conceito. ​

Grupo IVE: A narrativa restaurativa pode ser aplicada em eventos na área de marketing?

Judy: No grau que esses eventos na área de marketing tenham um componente de narrativa – tanto explícito ou sutil – isso pode ser aplicado ao marketing.

IVE

Imagens e Vozes de Esperança é um projeto internacional que inspira profissionais de mídia a ter uma visão mais apreciativa e equilibrada dos acontecimentos do mundo. Foi fundado em Nova York, em 1999, como uma iniciativa da Brahma Kumaris World Spiritual Organization, do Center for Advances in Appreciative Inquiry e da Visions of a Better World Foundation. O IVE é promovido globalmente pelo Images & Voices of Hope e no Brasil pela Organização Brahma Kumaris. 

“Queremos ver exclusivamente o mundo que está esmoronando ou colocar nossas luzes no novo mundo que está nascendo? Este é o poder da mídia, que pode colocar os refletores no que lhe interessa”  Judy Rodgers

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